14.5.12

4

Passei a anotar a quantos dias P. está acoplada em meu ombro e pescoço, mas P. comeu o caderno. Agora P. alterna batata palha com diferentes tipos de papéis. Minha mãe e eu ficamos bem aliviadas, já que papel é o que não falta aqui. Ainda bem que os jornais continuam chegando; um jornal dura aproximadamente dez dias. Passamos a anotar as coisas na parede de lousa da cozinha. Quase não tem mais espaço, e precisamos anotar uma coisa em cima da outra. Tentamos apagar as partes menos importantes com um pano úmido, mas as anotações se entranharam na parede e não saem de jeito nenhum, do mesmo modo que P. continua grudada aqui.
P. não se contenta apenas com os jornais e a batata palha. Temos que deixar longe dela nossos cadernos e desenhos. A vantagem de P. agora fazer parte de meu corpo é que ela só tem acesso a coisas que estão perto de mim, apenas tenho que tomar cuidado para não aproximar papéis importantes muito perto de meu rosto.

selene alge 10:02 AM

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7.5.12

3

A luz foi cortada. Sabíamos que isso iria acontecer cedo ou tarde e isso não nos afetou tanto assim. No começo, minha mãe ficou em pânico por não poder mais utilizar o computador, mas logo se conformou em escrever nos cadernos mesmo. Passamos a dormir mais cedo e a acordar com a luz do sol. Quando a noite chega, os olhos de P. transformam-se em lanternas. Isso começou a acontecer assim que ela percebeu que não acendíamos mais as luzes quando o sol se punha. O problema é que, assim como seus miados me afetam por estarem perto de minha orelha, a luz que sai de seus olhos vez ou outra é apontada diretamente para os meus. Se não fui cegada até agora, acredito que não tenha com o que me preocupar quanto a isso.
A batata palha de P. está acabando. Já coloquei perto dela tudo que ainda tem em nossa geladeira e armário, para ver se surtia algum efeito, e nada. Ela ainda só quer saber de batata palha.

selene alge 2:36 PM

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4.5.12

2

P. mudou de lugar. Não sei como isso aconteceu. Fui dormir como agora costumo dormir, com o braço amarrado para cima na cabeceira da cama e, quando acordei, P. estava feito carrapato em meu ombro e pescoço. Continuava com aquela mesma consistência entre o seco e o vaporoso, se mexendo quase nada mas com os olhos amarelos bem vivos. Os miados dela agora estavam consideravelmente mais presentes, talvez por estarem mais perto de minha orelha. Alimentá-la tornou-se uma tarefa quase de acrobata, já que quase não há espaço entre sua boca e o começo de meu maxilar. Eu havia me acostumado com P. em meu braço, praticamente não me importava mais de tê-la ali. Agora preciso me adaptar com P. naquele novo lugar. Cheguei a tentar desgruda-la dali mais uma vez, puxando, jogando água e aproximando-a da fumaça. Acho que essa última tentativa ia dar certo, mas senti que ela começaria a derreter novamente. Fiquei com medo e saí de perto dali.

selene alge 3:30 PM

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3.5.12

1

Pedi para minha mãe para que ela fosse tomar seu café da manhã na varanda, como de costume. Eu queria filmá-la. Não filmo sua cabeça, mãe, prometo, mas ela não quis, foi para frente do computador tartaruga não cravejada.
Estamos encavernadas há dias. Já perdemos a conta de quantos. Ela disse que está com a mesma blusa há cinco, mas cinco não significa nada mais. Já sei de cor todos os pontos desta casa. Ontem passei quatro horas e dezessete minutos estudando um vaso de vidro colorido que fica encostado sem planta dentro, ao lado daquele aquecedor enferrujado. Tentei verificar o número exato de cores que ele possui, mas a cada minuto que passava, seus tons mudavam. Nesse processo, anotei trezentas e vinte e quatro cores, mas sei que esse número está falho. Tudo foi ainda mais dificultado porque nossa gata, P., entrou em fase de derretimento e, numa tentativa de não deixa-la se espalhar completamente, seu corpo pré-derretido acoplou-se ao meu. Me parece que ficaremos grudadas ainda por um bom tempo, porque ela secou e se moldou no cilindro de meu braço. Ela não quer mais comer sua ração, agora só aceita batata palha. Não sei o que faremos quando a batata palha acabar. Compras por internet está fora de cogitação, assim como pagar as contas online. Não acreditamos nesse tipo de coisa.

selene alge 9:12 PM

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25.2.12

moule

Dançamos de novo. Somos bem uma dança, em ondas curtas e ondas longas, como tão divinamente colocou o parceiro cósmico e você desvendou. Não temos tantos compassos mas olha que ladeira linda, olha como as estrelas se afastam das nuvens (são as nuvens que estão se afastando, paulistana que não sabe beber).
Então rolamos ladeira abaixo. Não do mesmo jeito que o Mauro rola depois de beber champanhe usada e se engraçar com as zinhas. Ele rola de uma vez, ri nos olhos que nessas alturas não se mantêm abertos, levanta com minha ajuda em seus sapatos mauricianos. Nós não. Nós somos lentos. Rolamos como um plano euclidiano, em uma morte gravidade lua, facada sutil que não é nem rasgão nem corte de papel, é molusco. Uma tigela cheia de mariscos que não se movem e nunca se moveram, ficam ali em seus tons de laranja encardido tentando respirar algo que não seja esse chato ar. E tentando sem muito afinco, pois se tudo mais falhar também não tem problema.
O que tem problema é essa massa que se formou no tempo/espaço da ladeira estagnada. Esse vão precisou ser preenchido, e o vento leste soprou algo como farinha, leite e água, sempre inconsistente demais para virar pão. Não solidifica, fica planando nos espaços em que consegue se adentrar, e se alojou justamente nesse não acontecimento pairante. A massa bem que procura fazer com que a fresta ceda um pouco, para que uma parte dela possa passar para o outro lado; a outra parte ficaria lá mesmo, incrustada nas beiradas. Porém a fresta não cede, por mais que a solidez a empurre, microscopicamente, como as formações das falésias e dos vulcões. Espera-se que com isso o rolamento molusco se adiante, e por fim não passe do chão – o que nunca acontece, no máximo há o escorrimento cansado do pão líquido que se entranha sem questionar.

selene alge 4:59 AM

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26.12.11

You plus oranges
Are bigger than Sur
Instead of apples
I'll be Tasha Donner
Henry
In May
In June
Stayed
Salt and lake
Dance a lack
Little perfections
On the rocks
Henry
In May
In June
Stayed

selene alge 11:53 AM

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23.11.11

mãos

Mãos de repente perderam o sentido nesses 34º tardios. Essa massaroca comportando cinco palitos – não três, cinco. Cinco dedos, um mais para o lado, nenhum do mesmo tamanho, que dobram, tamborilam, tamborilam e se mexem como vermes com uns cascos nas pontas, e se inventam milhares de cores, se inventam milhares de cremes, se inventam ferramentas e ácidos, me belisca, via láctea, noite de gala, desfecho, doce loucura, twiggy, amarelo sol, amarelo pop arte, amarelo clássico, amarelo feno, amarelo castiçal, amarelo jurupinga, amarelo escama de tubarão, amarelo muco.
Por baixo não se decidem ásperas ou úmidas. Carregam todas as dores do mundo em suas linhas imaginárias. Essa diz que domingos são ruins para você, essa outra não recomenda tomar muito sol, e essa promete um amor estrangeiro. Mas prefiro ficar aqui mesmo, mas necessito de vitamina d, mas macarronada com frango é meu prato predileto. Elas que traçam, cutucam, abraçam seu último lampejo epidérmico. São convencidas por essas inúmeras articulações que manipulam seus ossos, empinam seus narizes por cima dos pés, que só fazem pisar num passo e depois noutro, depois noutro, depois noutro. Elas pensam que tem ritmo mas são só canção. Se cansam ao buscar de toda forma a invejada repetição daqueles que vivem embaixo, como o amanhecer e anoitecer constantes que elas nunca serão capazes de alcançar. Tentam entrelaçar com outras e os palitos se dobram estranhamente em número e desenho, encharcando juntas o pretendido afeto azul salmão.
Mas gosto daquelas que querem ser montanha. Encapuzadas por uma gelatina pálida que – comoestáfica! São melhores que castelos de areia molhada, que se demoram a desmoronar. Não, essas só desmoronam quando a gente manda, e em um tempo que nenhuma onda poderia imitar. Tento fazer o mesmo com as minhas, mas sei que ainda é cedo para isso. Então pego emprestadas as dela, e ela sabe bem o peixe grande que tem ali. Com uma torce a outra, observando o quão longe essa torção reverbera, mais longe do que circunferências de pedras lisas nos rios. Quase dá para escutar a melodia do repuxo, próxima à vogal entre o A e o E. Quase dá para fazer um redemoinho do avesso com aquela matéria que não é morta, mas age como cotovelo. Queria mesmo poder guardar um pedaço para redemoinhar toda vez que me fosse cabível: quando a pele do canto do dedo já tiver esgotada e em carne viva; quando o casco estiver muito curto para cortar e muito comprido para deixar; quando o papel ridiculamente traçar um sulco bem onde se faz relevo ao passar de quase bidimensional para semirretângulo ou semiconcha.
Há pouco tempo surgiu uma pinta bem nessa parte almofada. Não é nem onde termina nenhuma das linhas mais de baixo, é como se fosse entre elas, se elas continuassem. Não sei por que esse ponto resolveu ficar sozinho bem aí e acabo olhando bastante para ele, incrustado nesse lugar nenhum da massaroca. Ele dá uma certa graça nessa área inabitável, sem linha e sem repuxo, como aquelas casas tortas e disfuncionais que encontramos em pastos nas estradas. Ou lá em cima, onde ninguém nunca chegará. Duas estradas se bifurcaram no início e deixaram o meio sem caminho. Para chegar no ponto (ou na casa torta), só sendo raio, e um raio muito certeiro.

selene alge 10:20 PM

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22.9.11

março

Não sei mais fazer hora. Costumava ser boa nisso, agora faço tudo errado – o pão doce sexy não foi certo, nem a livraria ruim, nem as duas horas de adianto. Eu sabia como evitar esses zumbidos constantes e calcular um tempo que não chegasse nesse ponto. Não aguento mais flanar, Benjamin. Não estou em Paris, nem mesmo em espírito. O mundo faz muito barulho; será que não dá pra calar a boca um segundo que seja?
Esse bairro é mesmo chato, com suas ruas irritantemente planas e perfeitas e seus pães doces idiotas. Jack vai me levar para Buenos Aires ele tem um ótimo nome imita meu amor mas ao menos foi um acerto com as janelas que passam a estrada não amarela sem ondas sem ondas sem ondas ando apreensiva (cornetinha) com sua chegada de dezesseis dias lembro de você em todos os abris – bronquite SIC até sonhei com sua garota que patético Brasil. Ninguém mais fala assim era melhor do que os c cedilhas de hoje em dia mas já prometi não ser nostálgica Jefferson Airplaine e lança perfume no carro hoje é a última oficial e isso significa tanta coisa. Dá para falar mais baixo mulher para de zanzar com esse sapato branco e esse jaleco branco e esse fraseado branco e esse andar branco e esse tempo branco em suspensão. Sinto muito mas nada combina com esse manequim. Não sei de que disco é essa música é uma boa música realmente falamos de outra da mesma banda no dia frio pós sexo em que ele quebrou meu colar de tesourinhas e tive que usar o de pássaros – sem um olho. Dez minutos agora, estou virando especialista em contar o tempo se ganhasse um níquel a cada. Dois cachorros quase iguais quanto cachorro por aqui – parou. Ainda cogito um café mas não sei se é sabotagem daqui cinco anos teremos trinta e você vai estar mais insuportável do que nunca e eu estarei vulnerável e exuberante – e x u b e r a n t e e vai ser assim pra sempre se não formos tomar o café entende. Acho que não vou conseguir repetir o penteado amanhã.

selene alge 3:47 PM

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2.9.11

micose

Queria ter uma peruca com bigode e nariz para entrar na padaria. Pedir uma rosquinha? Uma pinga? Um misto quente? As três-da-tarde são todas cheias de possibilidades. A estratégia parecia perfeita, sem contar ser uma estratégia, as botas compridas e os cabelos compridos. Culparei as unhas amarelas, amarelo não dá sorte, não combina com o resto, eu já devia saber. Com nenhum resto. Parece remédio para micose. Qualquer coisa que tenha micose no meio é para se desconfiar.

selene alge 4:06 PM

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9.8.11

waving

Tanto oceano tem me cansado. Ondas sempre foram minhas amigas, nunca levei nenhum caldo muito sério. Não gosto de barcos porque eles me enjoam, é só uma questão prática mesmo. Tenho umas três músicas em homenagem ao mar one night there were waves there was past e elas eram um pouco de celofane líquido, transbordavam na tomada de sonho, sem peixes e sem som algum nothing seemed to be right but was so right in the same time. Só a menina de cabelo preso que ainda não sei o nome para fazer lembrar o quanto é verdade, essas três cores juntas em transparências são mesmo bonitas e já tá bom, a floresta podia ter parado por aí. Se não fosse todo caminho terminar em mar. Se não fosse um segundo and a whole world could happen. Falei disso em cartas que ficaram presas no caderninho verde e azul e que ainda não puderam existir e talvez nunca poderão, afinal the waves – oh the waves – were so unfair and so mine. Pronto, queimei o dedo escorrendo macarrão e segundos depois tive que afastar os óculos perto das azeitonas – lá vinham elas, so mine that I softly got lost acenando para manhã. Muitas delas, em transparências ou quase como o filme do Gondry cujo título não concordo, nothing matters but their blue.

selene alge 10:18 PM

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28.7.11

do parceiro cósmico

"[...] O poema é o presente que você não pode definir. Você o vive. Qualquer coisa é um poema se contiver tempo. Você não precisa tomar uma barca ou ir à China para escrever um poema. O mais belo que eu já vivi foi uma pia de cozinha. Já lhe falei sobre isso? Havia duas torneiras, uma chamada Froid e outra Chaud. Froid vivia uma vida in extenso, por meio de um tubo de borracha preso a seu bico. Chaud era brilhante e modesta. Chaud pingava o tempo todo, como se tivesse gonorréia. Nas terças e sextas-feiras ia à Mesquita onde havia uma clínica para torneiras venéreas. Nas terças e sextas-feiras Froid tinha de fazer todo o trabalho. Era um colosso para trabalhar. O trabalho era todo o seu mundo. Chaud por outro lado tinha de ser acariciada e agradada. Você precisava dizer 'não tão depressa' senão ela lhe arrancaria a pele de tão quente. De vez em quando elas trabalhavam em uníssono, Froid e Chaud, mas isso era raro. Nas noites de sábado, quando lavava meus pés na pia, eu me punha a pensar como era perfeito o mundo em que reinavam essas duas. Nunca havia coisa alguma além dessa pia de ferro com suas duas torneiras. Não havia princípios e não havia fins. Chaud, a alpha, e Froid, a ômega. Perpetuidade. Gemini reinando sobre a vida e a morte. Alpha-Chaud escorrendo por todos os graus de Fahrenheit e Reaumur, por limalhas magnéticas e caudas de cometas, pelo caldeirão fervente de Mauna Loa até a luz seca da lua terciária; Ômega-Froid escorrendo pelo Gulf Stream e entrando no leito paludal do mar dos Sargassos, correndo pelos marsupiais e foraminíferos, pelas baleias mamíferas e fissuras polares, [...]"

H.M. Primavera Negra. p. 123.

selene alge 5:43 PM

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13.5.11

craca

Você fazia minha unha como se fosse cinema. Tirava as cutículas e tudo. Colocou uma na boca para me provocar. Tinham cortes, zoom in zoom out. Acordei com frio, o batom estava vermelho demais e o caminho sem Henry. A mãe reclamou da colagem Rauschenberg, todos eles se divertiram juntando parafusos. Não sei por que colocam ponto de exclamação nas traduções sendo que ele não estava lá, que nem o queijo de sombra. Queijo de sombra, jura?
Você parece meio triste.
Não estou triste. É só domingo à noite.
O que é que tem?
A lua está minguante.
Isso te deixa triste?
Não estou triste.

selene alge 4:33 PM

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18.2.11

aquaplanagem

A fúria da natureza. É nessas que cê vê que tudo é tudo e nada é nada. Parecia ser bolinho de carne seca – sem mandioca – e a cerveja não devia estar tão gelada. O pão na chapa daqui não é dos melhores, mas no lugar da frente não tem senhorzinho de camisa listrada falando da casa que embica toda na água. Quando voltei o gato na porta era outro; parei pra dar um oi e ele miou verde água. Será que ele sabe como essa cor lhe cai bem ou a escolha da camisa foi mesmo aleatória?

selene alge 11:33 AM

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19.1.11

audrey

Ela fumou seu cigarrinho nas minhas mãos, uma de cada vez, a esquerda é preguicinha. Os doces devem ser jogados num jardim e logo pensei num canteiro, assim como vêm ripas de desenho animado quando madeira. Não sei de jardim, canteiro talvez, se for bidimensional, se for um parque não muito longe é mesmo, tem uma praça a poucos quarteirões. Chocolate de padaria vale? Drops vencido? Vencido não deve ser bom, claro que não, coisa velha não é legal oferecer, não sei, a Hepburn me deixou de mau humor.

selene alge 1:01 PM

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18.1.11

faca de manteiga

Foram-se todos numa crise maquinal. Agora vamos sair pelo centro nesse verão cheio de sol e chuva melhor se fosse som e fúria fugindo das nuvens negras ou usando-as como desculpa deixamos de lado os legumes inventados e nada mal os estúpidos flocos prateados terem desaparecido sorvete de fruta nunca foi o meu preferido mas hoje o de uva combinou com o atraso e o filme não visto eu te contei do sonho zumbi em sete palavras e uma vírgula com uma camiseta rosa fosforescente em todo momento ele age com suspeita doçura ele diz que acabou a luz mas sei que não é isso já faz uma semana e lembrei de você ao passarmos pelo bar com coretos mas ela não gosta de ouvir seu nome tudo bem eu também já não gosto tanto.

selene alge 7:45 PM

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14.6.10



3 (sXV)
admitir como verdadeiro, real
Ex.: r. a sua inocência
transitivo direto
4 considerar com atenção; observar, explorar
Ex.: r. lugares
transitivo direto
5 mostrar gratidão a; agradecer
Ex.: r. não os reconheço mais. talvez nenhum deles. não me reconheço neles.
se for assim com você também, que medo. terminamos o que tínhamos que terminar, temos certeza de que não para por aí, fazemos planos de resguardo, e de repente nos trombamos na rua e aquela certeza se mostra como todas as outras – incertas. mas você é uma certeza muito forte (assim como foram os outros). você me mudou mais do que ninguém (assim como foi com os outros). você foi a melhor surpresa do ano (assim como foram os outros).

selene alge 11:07 PM

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22.1.10

naquele ano li muito caio fernando abreu

Eu sei o que você vai dizer. Vai dar um gole, uma gota de café escorrerá pela xicrinha de asa inusitada até umedecer o pires, e então você vai me dizer que eu sou muito jóia, uma garota e tanto mesmo. Que se pudesse escolher, teria se apaixonado por mim, mas sabe como é, essas coisas fogem do nosso controle, eu não posso manipular meus sentimentos, e não querida, não abaixe os olhos desse jeito, olha pra mim, ouve o que eu to dizendo, não, eu sei, eu não devia mesmo ter te dito todas aquelas coisas, mas sabe, foi verdadeiro, eu precisava... não, escuta, deixa eu terminar, o quê? não, não é isso que eu to falando, você não tá entendendo, pára de mexer no açucareiro e presta atenção; não querida, eu não to dando ordens, eu só quero que... tá bom, tá bom, desculpa, mas é que você não me deixa terminar a frase, e aí fica tudo pela metade e você briga comigo porque entende tudo errado; não, não to dizendo que a culpa é sua, olha só como você é, sempre fica na defensiva achando que eu to te acusando, que nem aquela vez que... pára de rir esse riso sarcástico, eu to falando sério, to tentando deixar as coisas numa boa e você não ajuda, é por isso que a gente não dá certo, você sempre arruma um jeito de me fazer sentir culpado sem ter culpa nenhuma, o que você tá fazendo? não, fica aí, tá chovendo e eu ainda não terminei, sim, eu sei que você trouxe um guarda-chuva, você sempre traz guarda-chuvas, mas o ponto não é esse, a gente tem que conversar, escuta... monólogo? claro que isso não é um monólogo, como você tem coragem de me dizer uma coisa dessas? você nem me deixa terminar uma linha de pensamento e já vai me cortando, quem me dera que isso fosse um monólogo, assim não teria jeito de você... ah não querida, não chore, por favor, eu não quis falar dessa maneira, me desculpa? sim, eu sei, eu consigo ser bem otário as vezes, mas é que você me deixa nervoso querendo ir embora desse jeito, eu não quero que você vá embora, entende? claro que não quero, a gente ainda nem terminou de conversar; não querida, não fale assim, não me chame de egocêntrico, você sabe que eu não gosto, o quê? fala devagar senão eu não te entendo, olha, enxuga essas lágrimas, tá borrando toda a sua maquiagem, eu sei, eu sei, dane-se a maquiagem, sabia que você fica tão linda quando chora? e quando sorri assim também? dá a mão, não fica assim, você sabe que eu nunca quis te magoar, que eu odeio te ver chorar, é né, parece letra de música sertaneja, preciso aprender a escolher melhor as palavras pra não cair nessas, ei, olha lá fora que bonitinho aquele passarinho tomando água, parece com você, é tão gracioso quanto, não, você é mais graciosa, bem mais, bem mais; escuta, você não que ir pra outro lugar? aqui tá ficando cheio, eu to quase gritando pra conseguir falar com você, é sempre assim quando chega esse horário, nem sei porque viemos conversar nesse lugar, sim querida, eu sei que foi aqui que nos conhecemos, eu não quis ser insensível, só tava dizendo que... tá bom, não iremos pra lugar nenhum então, tudo sempre tem que ser do seu jeito mesmo, não, eu não to sendo grosso, pára de me interpretar mal pelo menos uma vez na vida, eu só acho que... fala baixo, tá todo mundo olhando, se você continuar falando nesse tom quem vai embora sou eu; ah, então é assim? tem razão, eu não mando na sua vida, mas eu não vou ficar aqui agüentando você dar piti enquanto eu quero resolver as coisas de forma civilizada, então você que vá gritar com outro panaca, porque eu não fiz nada pra ter que agüentar isso; olha, tá aqui o dinheiro do café, se quiser me liga quando tiver mais calma, tchau, passar bem.
É isso o que você vai dizer.

selene alge 12:33 PM

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6.11.09

Dylan roda na vitrola, o mundo voltou a ser tranquilo. Você roda na vitrola, o mundo voltou a ser tranquilo.

selene alge 1:34 PM

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12.8.09

nós não íamos ao cinema

A vez que falamos sobre ovo e sobre o sovaco da Madonna
A vez que tomamos milkshake e você prestava atenção para não pisar em poças
A vez que te dei o primeiro desenho e tivemos conversas existencialistas no sofá Bill Murray
A vez que você me deu o primeiro desenho; chovia de novo e tudo estava verde
A vez que você me viu tocar em Pinheiros
A vez que você me viu tocar por dois segundos e eu errei tudo
A vez que você me viu tocar no lugar estranho, e eu te disse que dessa vez eu ia tirar a carta MESMO
A vez que comemos gelatina azul em xícaras bacanas
A vez que morremos de frio esperando meu ônibus chegar
A vez que vimos Degas e eu te dei um copo com bolinhas
A vez que você só pegou o fim da última música, me disse que ia viajar e me deixou triste
A vez que você voltou de viagem e me trouxe uma lhama
A vez que tocamos em casa e colamos tudo com Tenaz
A vez que você me deu um abraço de feliz aniversário quase um mês depois
A vez que fizemos a mini-fruta e você se irritou com a massinha.

selene alge 1:20 PM

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29.7.09

quando seus minúsculos cílios param de eliminar o muco presente nas vias respiratórias

Respira, respira, menina. Calma. Calma que vai passar, você sabe, sempre passa. Demora, mas passa. Então tá. Então vou ouvir música, música é bom. Essa que me faz pensar nele, pensar nele é bom. Às vezes. Merda, não tá adiantando nada. Eu devia ter continuado no sofá. Deve ser esse tapete novo da Claclá. É, só pode ser. Ou foi porque fiquei nervosa com os berros dela. Tenho que me lembrar de não ficar nervosa. Ok, se no fim dessa música não passar, vou acordar meu pai. Ou não. Ou posso ficar desse jeito até amanhecer, que tal? Delícia, hã? Já fiz isso uma vez, não foi tão ruim assim. Claro que foi ruim, foi horrível, foi a pior noite da minha vida! Então calma. Espera mais dez minutos. Quinze. É que eu não queria ter que acordar meu pai, sabe? E outra, acordando meu pai, posso sem querer acordar a Claclá também, e aí vai ser aquele pepino pra ela dormir de novo. Mas olha só, se eu tiver sorte, meu pai estará dormindo do lado mais perto da porta, e aí pããã. Tá bom, agora pare de confabular e vai lá. É simples, dê uma batidinha na porta e entre; o que pode dar errado? Larga a mão de ser besta, é o seu pai, pô! Mas essa droga bem que podia passar agora, né? Faz assim, se eu melhorar daqui dois minutos, prometo não reclamar de nada nunca mais. É sério! Ai, calor, calor. Dor nas costas, tinha esquecido da maldita dor nas costas que vem junto dessa desgraça. Não aguento mais, isso é pior que todo mal-estar do mundo junto. Talvez se eu deitar com a cabeça na outra ponta da cama... Sempre dá certo quando se trata de pesadelos. É, não tá dando certo. Pesadelos parecem lindos perto disso. Troco essa noite por trinta mil pesadelos. Chega, vou bater na porta. Não, não vou. Vou. Não vou. Vai logo. Vou.

selene alge 12:18 AM

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6.3.09

monotalk

- Dá pra você parar de falar nisso, por um minuto que seja?
- Não dá. Não consigo!
- Claro que consegue. Você só não quer, mas conseguir você consegue. Olha só: vamos falar sobre...Árvores.
- Árvores.
- É, árvores. Elas balançam. E dão frutos. E têm nomes legais!
- ...
- Fícus. Fícus é um nome incrível.
- Fícus é horrível.
- Ok, nada de árvores então. Você não está na vibe das árvores, tudo bem, eu entendo. Podemos falar sobre viagens então.
- Eu não ligo para viagens.
- Qual é, todo mundo liga para viagens. Me diz, se você pudesse estar em qualquer lugar do mundo neste exato momento, onde estaria?
- No inferno.
- Eu disse “no mundo”, não em planos paralelos ou sei lá o quê.
- Eu gosto de planos paralelos.
- Então ótimo, vamos falar sobre planos paralelos. Ei, não tinha aquele negócio de que duas retas paralelas podem se encontrar no mesmo plano?
- Alto lá, estamos ou não estamos tentando focar num assunto aqui? Se você não se concentrar, aonde vamos parar?
- Tá certo, desculpa. Então, voltando, os planos paralelos...
- Cansei de falar sobre isso.
- Mas nós mal começamos!
- Mas tá chato. Cansei.
- E do que é que você não se cansa, hein? Não! Não responda, eu já sei. Já sei BEM.
- E por que não podemos falar sobre isso?
- Porque você SÓ fala sobre isso.
- E daí? Pelo menos eu falo sobre alguma coisa, já você não consegue sustentar um assunto por mais de dois travessões.
- Claro que não consigo! Você não colabora!
- Bela desculpa.

selene alge 7:11 PM

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27.2.09

quatro

Já não bastasse o filme triste que me fez perceber a realidade dessa coisa toda, eu estava exatamente no mesmo lugar e na mesma hora que estávamos há alguns meses, no dia mais perfeito do mundo, em que tudo aconteceu daquela forma que se acontece apenas algumas vezes na vida. Só que agora não tinha você. Tinha vento e lágrimas intrusas que eu não queria. Tinha vento e não tinha você. E de repente o fim de qualquer coisa me pareceu a pior dor que pode existir. E mais ainda: saber que tudo isso ainda vai se repetir inúmeras vezes, com outras pessoas e outros e mesmos lugares. Triste ver que até então eu achava que o amor sustentava qualquer coisa. Mas não. Os sonhos não realizados é que derrubam qualquer coisa, e detesto perceber isso. Como eu adoraria sentir só raiva e rancor, e sair pela madrugada rindo e dançando e olhando e beijando e te esquecendo. Eu tentei, juro. Tentei ser essa garota, mas tudo o que consegui foi chorar no meio da pista nos braços do melhor amigo bêbado. De um dia para outro, tudo de bonito tem que ser enterrado e nem um oi mais se pode dar, porque ois levam a neuroses e surtos e arrependimentos depois de cinco minutos. E agora você vai embora pra longe e isso é triste também, porque era confortável saber que quando eu estivesse bem para te ver, eu poderia. Poderia te chamar para um café, eu sei que você iria. Agora, talvez nunca. Nunca é muito tempo para alguém que foi seu amor.

selene alge 12:12 PM

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5.1.09

para ela

Para ela, que tem um coração partido que não se regenera nunca. Ela anda pelos dias como se eles não importassem, e assim meu coração se parte junto.

selene alge 10:55 PM

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24.6.08

verões

E então eu te contei sobre aquele verão em que nada aconteceu. Você me olhou com irrelevância, afinal que importância você daria para uma história em que nada acontece? Você ainda não sabia que são nos não-acontecimentos onde se escondem as boas histórias. Você tomava os primeiros goles de café daquela tarde, na xícara quente e miúda, e deixava escorrer um filete escuro pela superfície de porcelana, enquanto eu te contava fragmentos de um tempo lânguido, coberto por dias abafados e aparentemente anestesiados.
Foi só te contar tudo aquilo para que eu percebesse que de anestesiados eles não tinham nada. E que se todos aqueles não-fatos eram dignos de serem transformados em uma história, então que fossem fatos a partir daquele momento. Não apenas acontecimentos que são esquecidos em cinco minutos, mas fatos com tudo o que se tem direito, inclusive o poder de grudar na memória de quem os ouve. E mais ainda: o poder de fazer com que o ouvinte os inclua em sua próxima conversa; que fato não gostaria te ter essa grandeza toda? Até eu, se fosse um, gostaria de ter uma vida dessas. Mas você continuava a me olhar sem me olhar, tentando encontrar uma fresta para mudar de assunto. Sobre o que você falaria se eu cedesse? Provavelmente sobre nossas lembranças. Ou sobre como você gosta de café. O que não são tópicos ruins para uma conversa, confesso, mas cafés e lembranças não importavam naquele momento. Só importava aquele verão que nem teria existido se você não estivesse lá para ouvir sobre ele. Você fez um verão inteiro passar a existir, e você não percebia como isso estava sendo incrível.
E então, quando seu café acabou, eu tive que ceder.
- Vamos pedir mais um?
- Claro. - E o verão não teve como terminar.

selene alge 2:56 PM

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8.6.08

outubro

Em outubro você vem clarear, junto com a primavera e um pouco depois dos dois patos. Eu te espero com afinco e conto os dias ao acordar, em todos os dedos que me são possíveis. Na luz bonita de fim de outono, a claridade é um pouco você. A claridade e todo o resto; tudo no mundo passa a ter você. Você que ainda é apenas uma espera, e apenas virou algo grande demais. Talvez no fundo eu sempre soubesse que um dia você se materializaria, da maneira mais bonita, estando próxima assim antes mesmo de existir. De fato, você já existia antes mesmo de existir. Nos meus passos rápidos, nas horas que correm, no jeito que arrumo o cabelo e que olho para as nuvens, nos textos que escrevo, nas histórias que guardo para contar, para te contar, deixando claro algo aqui dentro, fazendo despontar sorrisos só em pensar. Pensar que com você, pra sempres existem na vida real. E saber disso é o conforto mais macio que eu poderia ter.
Seu coração já bate aqui perto. Sem metáforas, ele bate verdadeiramente.
Te espero na alvura, Clara.

selene alge 1:41 PM

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29.1.08

as suas malditas nuvens

Viu? Você não conseguiu o que queria. Eu saí de casa mesmo com todas as suas tentativas de me prender. Eu disse que você não é mais forte que eu, eu disse. Ora amena, ora histérica, sempre desejando me manipular, mas olha só: você fracassou, baby. Fracassou bonito, com todas as letras e todos os pingos; apenas nas pinturas de paisagem com a poética do sublime você ganha, aqui comigo você não passa de pitoresca. Isso mesmo, p-i-t-o-r-e-s-c-a. E pensar que já te achei inspiradora, já comemorei a sua presença com danças e cobertores... Bons tempos aqueles, não? Você costumava deixar meu sono mais tranqüilo, criava lindas melodias até o amanhecer e eu não me preocupava com nada. Agora você deixou de ser amável, agora você só faz repetir as mesmas nuvens sempre e sempre. Só porque algumas vezes eu colocava um ovo na janela para que você fosse um pouco embora? Eu só queria você longe um pouco. Só um pouquinho. Nunca quis te ofender, você sabe. A questão é que a gente sempre combinou que em janeiro você não estaria por perto. Combinado é combinado, meu bem. Por que você precisa levar tudo para o lado pessoal? Eu até já compus músicas para você; elas são suas, de mais ninguém. Mas você insiste em não reconhecer nada e querer me deixar aqui, enquanto você fica lá fora saracoteando por aí. Acha isso justo, acha? Pois eu não. Por isso mesmo que você não conseguiu me transformar na garota do sofá. Percebeu que nem virando meu guarda-chuva você vence? Nem chamando aliados invisíveis e barulhentos? Eu sou mais forte, mesmo com toda a sua magnitude. Reconheça isso e aí encerramos esse assunto. Dá o dedinho, dá.

selene alge 9:36 PM

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10.1.08

Hoje. Me canso um pouco das imagens que não são palpáveis, e desfaleço só por uns segundos. Me lembro da carta de tarô que dizia todas aquelas verdades que a gente insiste em esconder - redundâncias de ano novo, só faltaram mesmo Iemanjá e as ondas que não eram de Virginia. Pedi aquelas coisas que todo mundo quer, tirei as fotos que você, e ele, e ele, e ela e todos os eles e elas também terão. Tudo tão imenso; tinha mesmo que ser tão grande? Tinha?
Também vi o horizonte desgastado, lá longe, fingindo dividir em confortos o que não alcanço. Ele me deu um pedaço.

selene alge 12:30 AM

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12.11.07

keep the things you forgot

Havia peixes e aviões, Capotes e sussurros estreitos ao meio dia. Havia sábados laranjas, vento macio, você querendo não estar tão perdido. Havia trânsito e silêncios ansiosos, havia moças que não paravam de rodar, sonhos de padaria e esperas pelo próximo segundo. Havia manhãs que não existiram e conversas que não tivemos, risadas que não quis dar e histórias que deixei de contar. Havia vertigem com chocolate, soluços encaixotados, eu perguntando como foi o feriado quando na verdade queria perguntar se... Havia fotografias desmaterializadas e átomos vazios com seus núcleos totalitários, havia geléia de hibisco e morcegos na janela. Havia as mesmas horas que não se mostram, negações em plena luz do dia, desenhos que pensei em fazer, aquela bandinha bacana no rádio. Piadas irônicas que se arrependeram, o livro que não termina nunca, seu mais perto que não vem nunca. Havia interruptores de maçã e dois patinhos na lagoa, perguntas repetidas e memórias sobre o que mesmo? Havia pássaros de origami dentro de xícaras metafóricas, havia passos sem ruídos e havia tempo suficiente sem se ver para termos assuntos sem constrangimentos. Havia os meses em que não se sabia, dias em que nada havia. Depois havia ainda bossa nova, tardes que caíam no mar, calçadas poéticas. Saudades do que não se conhece, fuga nº 2. Havia o branco de como amar o que sempre fora amado, havia o sono líquido escorrendo pelo chão que não é de lá. Havia pendências, muitas delas, junto a tic-tacs que não consigo segurar. Havia people you've been before that you don't want around anymore e tudo aquilo que ainda não falei; tantos aindas que não cabem num só havia. Havia mais um muito.

selene alge 6:34 PM

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21.10.07

sobre um tempo em que só existia talvez

Volto pra casa com a certeza de que devo chorar. E dessa vez, sem jardim. Não cabe jardim com toda essa nossa próxima distância, só cabe o silêncio de sempre. O seu silêncio, suas poucas palavras, e o jeito que você sorri e me olha por uns segundos, esse seu jeito que faz com que eu me cale também; tudo seu, tudo você e todo talvez. A cada trago anoiteço mais um pouco, e reparo em como tomo conta para não repetir muito a roupa enquanto você aparece cada vez com um corte de cabelo. E você sentado, você como sempre, você e seu abraço esquisito, você ali, você não sorrindo mais, você concentrado nos seus passos, você e toda a sua estranheza, você, você, vocÊ, você arranca esse talvez.

você não me acompanhou até o metrô.

selene alge 10:07 PM

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10.10.07

fragmento de um não-amor

Falar de amor é over. Coisa mais arcaica do mundo, e todos continuam falando sobre esse negócio, inclusive eu. Com tanto assunto no mundo... Tamanho desperdício.
Ela havia acabado de ler a última frase do livro quando caiu o primeiro pingo. O inverno estava abafado e pasmo e “quebomumachuvinhavaicairbemmesmo”. Já aviso que, diferentemente das mulheres que costumam protagonizar as histórias de amor, ela não era nada solitária. Nem infeliz. Nem bonita, nem feia. Não tinha sonhos fenomenais nem manias particulares. Nada disso, nada disso; tinha uns bons amigos, um apartamento bacana e uma unha encravada. Por enquanto basta, ao menos até o segundo pingo cair, ou o milésimo, tanto faz, porque foi só depois que os pingos viraram uma massaroca de águas histéricas é que ela resolveu pegar o guarda-chuva e sair para dar uma volta. Uma volta bem besta, se é que você quer saber. Só ela sai de casa para não fazer nada com uma chuva dessas, só ela contorna o quarteirão com assobios aleatórios enquanto deixa a barra da calça molhar, e por causa desses sós a rua estava deserta e monocromática. Nada aconteceu nesses minutos molhados, nem poderia acontecer, porque nada acontece quase sempre nessas circunstâncias, e em tantas outras.
Todo mundo tinha um amor para pensar,
menos ela menos ela.
E não havia problema nenhum nisso. Nenhumzinho. Até o telefone tocar de novo.
Ela já estava em casa com uma toalha aconchegante enrolada na cabeça, as unhas das mãos berrando em escarlate, os assobios guardados para mais tarde, quando ouviu os primeiros trims. Convidativos, amigáveis, carismáticos, diferente daqueles que a gente ignora com medo de ser telemarketing ou a vizinha perguntando se pode dar uma passadinha para pegar uma xícara de açúcar. Não chovia mais, a noite caía, tudo assim, nada demais. A toalha despencava um pouco para o lado enquanto ela se dirigia sem pressa até o telefone que soava macio.
Sexto, sétimo trim. Melodia para seus passos, tão delicados e despreocupados que era até bonito de se ver. No oitavo trim, ela atendeu.
E era engano.
E foi o engano mais triste do mundo, porque a partir dele, ela se deu conta de tantos outros enganos que moravam naquele apartamento: a chuva não era feliz, a rua deserta não era feliz, a barra da calça molhada não era feliz, e o telefone não tocar para ela era tremendamente infeliz. Tocava para outra pessoa qualquer, não para ela. Tocava para alguém que tinha um amor para pensar, umas tristezas para contar. Para alguém que não assobia na chuva, que se importa se nada acontece, que larga livros pela metade. “Não para mim”.
Ela poderia ter se jogado no sofá, embalada por cantoras lindamente tristes que têm dor de sobra para compartilhar, e ter deixado toda aquela amargura afundar nos seus poros encolhidos. Poderia sim, eu teria feito isso. Mas o que ela fez foi abrir a janela e conferir se ainda havia pingos. Mesmo sem nenhum deles, ela tirou a toalha da cabeça, balançou os cabelos úmidos, encaixou o guarda-chuva fechado no braço e saiu para dar outra volta. Dessa vez, sem assobios.

selene alge 2:33 PM

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1.10.07

...continua, mas não agora.

a falta que sinto dos seus doces murmúrios

Sim, dos seus murmúrios, não de você. Daquele negócio que dava quando você olhava para mim daquele jeito entorpecido, clichê, mais clichê impossível. No fim das contas, tudo o que podemos querer nesses momentos são os mais melancólicos clichês. Que machucam, iludem, respiram, que fazem o mundo derreter e que inspiram os mais farabutos filmes hollywoodianos, para depois você ir embora e me deixar com saudades de tudo aquilo que você foi para mim e eu não fui para você. Mas não de você. Só daquelas palavras que não paravam nunca, dizendo coisas que nem sequer me interessavam, mas que eram suas e assim viravam minhas. Dos recém dezessete que não entendiam nada, mas que te olhavam com magnitude por toda a espera e receio, e por todos os outros você que seguiriam e tropeçariam a cada detalhe que eu tomaria para mim. De fato seguem enquanto me lembro de noites azuis em que as cores combinavam sem querer e a cidade silenciava por segundos nossos. O vestido verde que nem era tão verde assim impregnava lembranças de inúmeras frases de efeito e de fumaças e de músicas dos Beatles na madrugada, e só não continua a impregnar porque tirá-lo do conforto do armário me faz vestir frases de efeito e fumaças e músicas dos Beatles na madrugada. O que acontecia é que ali eu escrevia ordinárias canções de amor embevecidas por três acordes, um deles com sétima aumentada talvez, e no gravadorzinho elas que eram minhas, viravam suas. Todas elas, para você ou para um não-você; mas no fim, suas. Assim é que me deixo sorrir pela falta dos seus doces murmúrios.

selene alge 2:31 PM

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12.9.07

Eu sei, não foi uma aposta das mais glamourosas, mas isso era o de menos. Certa vez Clara e eu apostamos a data em que nos conhecemos (ela afirmava que tinha sido no primeiro fim de semana de outubro, e eu achava que isso era impossível, porque na minha cabeça nessa data eu estava fora da cidade e blábláblá). Obviamente perdi a aposta, como sempre. Tive que ir com ela numa festa chatíssima de ano novo, daquelas em que a única coisa que as pessoas presentes têm em comum é o fato de estarem solitárias e perdidas sem ter lugar melhor para ir. Se eu tivesse ganhado, Clara teria que fazer um churrasco pra mim, na super churrasqueira que ela comprou pela Poli Shop e nunca acendeu. Bem mais humana minha exigência, não é? Pelo menos não incluía estragar ano novo de ninguém.
Eu estava mais confiante em relação a essa aposta. Pensei até em aumentá-la para um expresso, um salgado e sei lá, uma passagem para Bahamas, mas deixei pra lá. O que valia mesmo era o gostinho que eu ia ter em dizer: “Sabia! Tá vendo só? Você não consegue não voltar, não consegue, lálálá!” Mal sabia eu da dor de cabeça que me causaria aquele mísero cafezinho com aquela maldita quiche lorraine.

Ganhei. Uma semana depois, Clara voltou lá com a desculpa de ter esquecido um cachecol.
- Não podia ter dado uma desculpa melhor, não?
- Não é desculpa, é fato; eu podia muito bem nem ter te contado isso, se você quer saber, porque foi um acidente do acaso, Alice. Não voltei porque quis, voltei porque aquela droga de cachecol tinha ficado lá.
- Se ele é uma droga, por que você quis pegar de volta?
- Ah, você me entendeu, é modo de dizer.
- Ladainha. A gente apostou que você nunca mais voltaria lá. Você voltou. Pronto, perdeu. Cadê meu café?

continua...

selene alge 8:05 PM

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24.8.07

Ela me disse que nunca mais voltaria lá. Tudo bem, digamos que eu acredite, digamos que ela amarre os pés para que eles não tenham como correr pr’aqueles braços; de que adiantaria? Ela continuaria me cansando com a mesma história de sempre, o mesmo telefone que não toca, o mesmo arrependimento pela caixa inteira de bombons, e eu juro que já tô cheia disso tudo.
Fazia calor em agosto, e estávamos num café no centro que ela cismava em adorar, apesar das xícaras hostis e do cheiro de músicas tristes. “Alice, como um lugar pode ter cheiro de som??”, ela perguntava, e eu só dizia que tinha e pronto. Não tem como discutir essa questão; fatos não se discutem, não é assim? Clara gostar daquele café era um fato, e por isso nada do que eu dissesse faria com que fôssemos a procura de um lugar mais agradável, então toda terça-feira de manhã nos encontrávamos lá, tomávamos cappuccinos e afins para depois irmos viver nossas vidas. Confesso que durante a semana inteira eu esperava pelas terças e pelas reclamações costumeiras da Clara. Até o pão na chapa engordurado era melhor do que a emocionante atmosfera matutina do meu trabalho, e foi justamente enquanto eu penava para usar menos de cem guardanapos para segurar o pão, que ela me disse “dessa vez é sério” e me olhou aquele olhar transparente e até meio trôpego que só as Claras têm.
- Toda vez você diz que dessa vez é sério – eu disse – “sério” já tá virando uma palavra bem relativa nas nossas conversas...
- Quer apostar?
- O quê?
- Humm, aposto com você um expresso e um salgado de como tô falando sério.
- Só se for na padaria chique do lado da sua casa.
- Fechado!

continua...

selene alge 11:37 PM

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tá bonito aqui, né? o mauro querido que fez! :)

selene alge 11:33 PM

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19.7.07

clara mais uma vez se questionava sobre aquele círculo vicioso, mais vicioso do que círculo. não entendia como podia deixar seus dias passarem assim, inertes à sua existência. sossegou um pouco depois que fez a sobrancelha, mas após algumas horas, nem isso importava mais. era isso, as horas tinham prazo de validade, e logo ela voltava praquele estado de torpor infinito, preguiça que nem sequer era bem-vinda. fazia brigadeiro, assistia ao mesmo filme besta pela milésima vez, passava longos minutos só para escolher a trilha sonora que nunca era a ideal, e girava nesse nada interminável até o sol se pôr, e nascer de novo, e se pôr, e nascer, e se pôr. até saía para tomar café, andava extensos metros na noite bonita, cantarolava e ria, mas era só voltar para casa para que tudo aquilo voltasse sem a menor cerimônia. as vezes ela tomava coragem e gritava com toda essa malemolência, mas ah... pra quê? "até que tá bom aqui".

selene alge 5:49 PM

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23.2.07

clara, num lapso de intrepidez:

- se eu te disser uma coisa, você promete que não vai sair correndo?
- como assim?
- sair correndo. em todos os sentidos, inclusive os metafóricos.
- hum... prometo.
- ó lá hein! você não vai sair correndo, não importa o que eu diga!
- não vou!
- que bom.
...
- e...?
- e o que?
- tô esperando, ué.
- mas ei, eu não disse que ia dizer, eu só levantei uma situação hipotética.
- ah, então minha promessa também é hipotética? se na vida real você não vai dizer, então na vida real minha promessa também não vale.
- nem vem com essa. porque, sendo na vida real ou não, a coisa que eu diria sempre vem acompanhada da sua promessa, a partir do momento que você prometeu, saca?
- que?
- ah, não importa, eu não vou dizer mesmo!
- por quê?
- porque não. ainda mais depois dessa sua colocação sobre a vida real.
- diz, vai...
- não.
- e se eu prometer na vida real?
- não sei. aí talvez eu possa até pensar no seu caso. talvez!

selene alge 10:03 PM

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29.11.06



all your life

selene alge 9:07 AM

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25.11.06

Adeus, dezembro. Pegue as malas e vá embora com seu arzinho de dono da verdade. Você sempre entra sem ser convidado, e eu, muito educada, acabo deixando e chego até a perguntar como tem passado, mas dessa vez não será assim. Dessa vez você não fica. Pode chorar, dizer que eu não consigo viver sem você, alegar que eu não posso com sua imensidão, que eu sou fraca e fugitiva. Não interessa, dessa vez você não fica. Vá relevar pensamentos sombrios e cutucar chagas alheias em outro lugar, aqui não. Não, obrigada, não quero seu abraço, seu consolo, seu sorriso amarelo, sua lentilha idiota. E não venha me dizer que sou mal agradecida e que não sei dar valor às coisas; aliás, o que você entende de valores? Quem você pensa que é pra tocar nessa questão agora? Essa é boa: você, todo cheio de falsa modéstia, me dando lição de moral. É muita pretensão pro meu gosto. Eu não vou cair na sua, rapaz. Não dessa vez, simplesmente porque dessa vez você não fica. Não sei se você percebeu, mas tô querendo resolver as coisas de forma civilizada, então vá embora logo antes que eu tenha que bater a porta na sua cara. E tenho dito.

(esse vai pro zine)

selene alge 4:04 PM

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23.7.06

descobri que existe uma espécie de borboleta chamada clossiana selene.
que emoção :~


selene alge 2:04 PM

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16.5.06

madeleine peyroux embalando cena patética de novela. isso que é surrealismo!

selene alge 3:32 PM

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26.4.06

sonho com mini-frutas saindo da minha bochecha.







selene alge 6:51 PM

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13.3.06

não me faça falar de suavidade e das chuvas que borram março. e nem venha com palavras floridas e com ar de despedida. não quero tentar adivinhar qual é seu sabor de chá preferido, não quero frases dadaístas, não quero discutir sobre o último filme que você viu.
não venha sem perguntas, mas guarde suas respostas. não pense duas vezes. e não me faça equacionar palavras com cuidado. não quero ter cuidado.
não venha com pausas semi-breves e com cheios quase vazios. não quero quases.
não me faça ter a necessidade de arrancar sorrisos o tempo todo, de contorcer os dedos das mãos e de agradar. e não me faça entristecer ao lembrar.
venha você.




selene alge 4:14 PM

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18.2.06



todos os dias.


selene alge 1:08 AM

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19.1.06



garota rosa.

selene alge 9:23 PM

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11.1.06

amarelo

era uma madrugada silenciosa. ela cortou um pedaço do bolo que estava a uma semana sobre a mesa, já sem cobertura porque sabe como é, ela gosta de comer só a cobertura de vez em quando. sentiu frio no calcanhar e reparou que um dos seus pés estavam sem meia. "mais uma vez devo ter perdido nas cobertas". mastigou a fatia farinhenta de bolo enquanto se jogava no sofá amarelo. "tenho que comprar leite, tenho que marcar oftamologista, tenho que ir mais ao cinema, tenho que lavar meu carro, tenho que entregar um trabalho, tenho... muitas cobranças de mim para mim mesma, tenho que parar com isso. tenho sono, mas não consigo fechar os olhos."
o telefone tocou. "sonha que vou atender, sonha! deve ser algum cretino qualquer, mesmo. não vou atender. não adianta insistir. pra que raios existe secretária eletrônica, afinal? mas não, eles não deixam recado, nunca. 'não gosto de falar com máquinas', eles dizem. hunf. e mais essa, meu pé dormiu. bem bacana ele; dorme e me deixa aqui acordada, sem meia e descabelada. sem UMA meia, UMA, o que é ainda mais patético. deve ser umas quatro da manhã e aqui estou quase ouvindo o ronco do meu pé esquerdo, mas aposto que ele não sonha. ele pode dormir mas não pode sonhar, há, bem feito. vai, continua dormindo, desgraçado, que eu não me importo, ok? você vai ver só quando eu resolver levantar daqui. e quer saber? vou levantar agora, ah vou mesmo, porque eu tô com sede."
ela então levantou. seu pé doeu e formigou e ela foi andando desajeitadamente até a cozinha xingando o pé que acordava. abriu a porta da geladeira quase vazia e ficou parada em frente dela ouvindo o barulho do motor e deixando sua cara amassada ser iluminada pela luz amarela. "tenho que dar um jeito no meu cabelo, tenho que ligar pra lavanderia, tenho que levar meu cachorro pra passear, tenho que estudar violino..."

selene alge 10:41 AM

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28.11.05




i paint pictures
to remember
you´re too beautiful
to put into words





selene alge 6:11 PM

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24.11.05

acorde, alice, mas não abra as janelas.
fique um pouco entre as cobertas macias e lembre-se de que precisa cortar as unhas dos pés.
delicie-se com sua miopia, dance quieta com pedaços de cores difusas que te convidam a respirar.
espreguice seus pesadelos, reconheça sua voz. "bom dia".
não, não boceje tanto. um maxilar caído no chão não é uma boa idéia agora.
bonita.
pálpebras.
campainha.
ventilador que derrete...
... flores engolindo meteoros ...
.... m e t e o r o s q........ u ....e.. d....... e.... r ........................... r..... e.............. t ........ e ..... .............. m ....


acorde, alice!




selene alge 6:30 PM

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3.11.05

saudades de quando o caminho era pra lá e de quando homens barrigudos com sobrenomes de árvores frutíferas ainda não existiam.
nunca é tarde pra chegar a tempo?






selene alge 6:46 PM

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13.10.05


ou esconder-me atrás de cifras moduladas em tons bemóis.

(a propósito, luisa mandou um beijo.)


selene alge 6:14 PM

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11.10.05

alice comprando bilhete de metrô e ouvindo indie pop:

- um, por favor.
...
- ahm... acho que tá faltando troco...
- 5, 10, 20 shshfhso ntavos 5 shhhfhehs ulpa.

alice tira um fone do ouvido para ouvir melhor:

- oi?
- tavam faltando 30 centavos, desculpa.
- ah sim. brigada.

alice achou realmente que tinha escutado melhor. aí viu que o fone que estava na sua mão era justamente o que não funcionava, e riu.

selene alge 8:04 PM

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19.9.05




selene alge 10:06 PM

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25.8.05

sim, a noite estava mesmo bonita, presenteada com aquela lua esbanjadora e espaçosa. mas alice só comentou sobre a noite porque já estava cansada daquele silêncio que parecia colocar quilômetros de distância entre eles, e não porque realmente tinha notado a lua que sorria para ela, só para ela.
- é, tá bem bonita mesmo...

afastando uma mecha de cabelo que voava em sua boca, ela ainda tentou falar sobre o tempo, sobre o jantar, sobre deus, sobre o acaso, mas foi inútil. o silêncio continuava aconchegante entre eles, dando uma mão para cada um. ela, vencida, acabou deixando a quietude em paz. duas garotas com passos rápidos passaram por eles, e uma delas falava animada sobre o carro novo que pretendia comprar, ou algo parecido; alice não conseguiu ouvir muito bem, apesar de ter tentado. ela sempre gostou de escutar a conversa dos outros pra depois inventar pra ela mesma um desfecho, que provavelmente seria muito mais emocionante do que o real.

ele continuava com a testa franzida e com seus olhos sempre entretidos com o chão, como se lá tivesse algo muito interessante para se olhar. ela até pensou em perguntar o que tinha de tão admirável no chão, ou em fazer alguma piada infame sobre a situação, mas logo viu o silêncio ao seu lado, que já estava tão íntimo dela e que parecia desfrutar de um prazer tão grande ao olhar para os dois, e desistiu de mandá-lo embora mais uma vez. ele então descansou seu braço no ombro dela, num meio abraço. e o silêncio permaneceu lá, mas foi para longe.

selene alge 2:15 PM

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16.8.05

selene alge 6:56 PM

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1.8.05

alice continua sem saber o que dizer. olha para o prato de sopa na sua frente onde a pouco havia bife a milanesa e arroz japonês e pensa em quantas lâmpadas da sua casa tinham queimado naquele mês. vê de relance seu reflexo distorcido na colher de sobremesa e não acha a mínima graça.
- então, alice. a gente vai ficar aqui olhando para os pratos vazios a vida inteira?
ela preferiria. preferiria ter nos olhos aquele prato quadriculado e engordurado pra sempre a ter que produzir palavras agora. e num agora mais recente ainda, ela consegue dizer mexendo avidamente o açúcar no açucareiro:
- vamos dar uma volta?
entre ruídos de cadeiras raspando o chão, os dois vão pela calçada iluminada na noite de fim de inverno. alice tenta perceber quantas vezes o passo dele é maior que o seu: "quase duas.". ele tosse, ela coloca as mãos nos bolsos. ela oferece uma bala de cereja, ele recusa. ele se sente desconfortável dentro dele, ela mais ainda.
-bonita a noite, não?

selene alge 2:26 PM

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23.6.05

aquela manhã embolorada
era dela.
aquele sorriso apertado
era pra ela.
aquela segunda passada
não é com ela.
os olhos todinhos nos seus:

uma piscadela.

selene alge 6:32 PM

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18.5.05

Alice

Alice queria que ele olhasse pra ela. Nem que fosse só um pouquinho, de relance, timidamente, sem querer. Talvez até sem intenção, maquinalmente, sem querer. Podia ser por um segundo apenas, por acaso, ou quem sabe nem isso, quem sabe até por meio segundo, se não fosse pedir demais. Esse tempo seria suficiente para ela se deliciar tentando encontrar no fundo dos olhos dele suas pupilas camufladas de castanho. Logo ele desviaria o olhar para alguma coisa sem importância, para um fiapo solto em sua blusa, para suas unhas não mais tão curtas, e nem teria notado que havia um cílio caído em sua bochecha. Alice teria notado.

selene alge 6:03 PM

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9.5.05

someday soon all the flowers are gonna bloom and when they do, i'll be looking for you.

selene alge 5:34 PM

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18.4.05

argh. gripe depreda toda a elegância humana. fico tão boba que choro vendo sex and the city, tomo sopa de café da manhã, passo horas deitada olhando minhas unhas contra a luz, leio revistas bestas sem me sentir culpada, fujo do espelho pro meu próprio bem, tento afogar minha dor nas costas num chocolate meio amargo, mas tudo o que consigo é me afogar em mucos que parecem não acabar mais. eco.

selene alge 4:36 PM

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17.4.05

i color the sky with you
i let you choose the blue

selene alge 12:03 PM

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13.4.05

de novo a mesma conversa, de novo o mesmo choro, de novo a sexta-feira chegando e junto com ela a domatofobia, de novo os mesmos problemas, de novo os mesmo argumentos, de novo ela não me entende, de novo a sensação de que vai ser assim pra sempre, de novo ela diz que eu aumento tudo, de novo vejo como tudo mudou tanto e como tudo ainda é tão estranho pra mim, de novo fico mal por causar conflitos, de novo eu me pergunto, de novo penso que mesmo se ela me entendesse não teria solução, de novo papel higiênico no nariz, de novo uma mancha num dia que estava impecável, de novo o mesmo passado, de novo me sinto egoísta e egocêntrica, de novo percebo que já tentei fazer a minha parte, de novo o mesmo gosto pálido na boca.

de novo isso tudo não tem nada...












ela até que me entende.

selene alge 8:21 PM

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6.4.05

é estranho sentir saudades e repúdio ao mesmo tempo. não combina, é como colocar um nome que comece com "b" no caderninho de telefone na letra "f". e aí a gente procura um motivo praquele nome estar lá no meio de todos aqueles "fs", mas não encontra nenhum... pois é, existem saudades inchadas entre repúdios intumescidos no meu caderninho de telefone interno...

and I'm certain, if i drive into those trees,
it would make less of a mess
than you've made of me. -> *rainer maria - broken radio*

selene alge 11:24 PM

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27.3.05

não gosto de tomar água em xícaras. não mesmo.

selene alge 8:45 PM

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21.3.05

Alfaces

- Sabe... Sempre achei alface uma coisa meio sem graça...
- O quê?
- Alface... Alface! Por que você sempre pergunta o que eu disse sendo que eu sei que você me ouviu muito bem? Que coisa... Isso me tira do sério.
- Ah sim! Você quer que eu ache muito normal você começar a falar de alfaces no meio do nada, né?
- Meio do nada? E desde quando nada tem meio?
- Ai, Cristo...
- Tá tá, se você não quer conversar continua aí parada nesse sofá bolorento estúpido roendo essas suas unhas estúpidas que eu vou dormir. Aliás, onde raios você arranjou esse sofá horroroso, posso saber? Você e essa sua mania de trazer essas velharias horríveis pra casa...
- Olha, por que você não vai dormir, hein?
Vicente estava apoiado na janela vendo a chuva cair e vendo sua respiração e suas palavras embaçarem o vidro. Com um suspiro, virou-se em direção à Ana e olhou tristemente a xícara de café em suas mãos onde à pouco tempo havia café. Ana usava um vestido florido simples e notava-se que seus cabelos embaraçados não eram assim tão pretos quanto pareciam ser.
- Você gosta do meu cabelo? - ela perguntou, olhando para suas unhas como se elas fossem a coisa mais interessante do mundo.
- Ahá! sobre o seu cabelo você quer falar, né? Pois eu te digo que eu não quero falar sobre cabelos. Pelo menos não enquanto você não me responder o que acha de alfaces. - ele disse dirigindo-se para a cozinha. - Pô, o café já acabou?? Merda.
Ana levantou-se e foi até o móvel de metal do outro lado da sala onde ficava o aparelho de som e vários CDs espalhados, fora de suas respectivas caixas. Ela agachou-se procurando um CD do The Cure, mas como não achou, colocou pra tocar um do Smiths.
- Aaahh... Adoro essa música - ela suspirou, acendendo um cigarro, referindo-se a música "This Charming Man". E ainda na cozinha, ele disse:
- E eu adoro café e pra variar acabou. Pra variar só tem essa merda de cappuccino em pó. Argh. Você e esses cappuccinos cretinos. Porra Ana, abaixa um pouco esse som!
Ana não se mexeu. Cantarolava de olhos fechados e fingia tocar uma guitarra imaginária. A chuva lá fora aumentava. Os azulejos frios da parede da cozinha pareciam olhar para Vicente de forma curiosa e aterrorizante.
- Odeio azulejos.
- O quê?
- Se tem uma coisa nesse mundo que eu realmente odeie, essa coisa são azulejos.
- Não ouço uma palavra do que você diz.
- Claro que você não ouve! Claro! Acharia até estranho se você ouvisse alguma coisa com esse som nessa altura e com essa chuva. Cacete, será que não tem nem um pão amanhecido nessa casa? - ele revirava o armário da cozinha, e nisso um prato caiu. - Merda!
Ele saiu da cozinha, onde estava fervendo com desgosto uma xícara de água no microondas para fazer cappuccino, deixando os cacos no chão. Parou bufando em frente do sofá onde Ana estava sentada:
- Agora escuta. Têm cacos de um prato que eu quebrei na cozinha. Tá chovendo. O café acabou e você nem sequer me responde o que acha de alfaces. Algo parece estar errado, não? - o microondas apitou.
- "I would go out tonight, but I haven't got a stitch to weeeeeear"
- Ótimo. Agora você vai cantar enquanto falo com você. Perfeito. - eles se encararam, mas logo Ana desviou o olhar e voltou a roer as unhas. Um longo silêncio se fez, um silêncio intenso que não era realmente um silêncio. A música mudou, e nesse momento Vicente olhou para os pés descalços de Ana e passou as mãos pelo próprio pescoço.
- A água do seu cappuccino vai esfriar.
- Foda-se a água do meu cappuccino. - ele foi para o quarto em passos rápidos e ouviu-se a porta sendo batida com força. Ana suspirou e desligou o som. Dirigiu-se até a mesma janela que Vicente estava olhando a chuva minutos atrás e fez o mesmo. Com o dedo, fez desenhos de estrelas e espirais no vidro embaçado. Viu um vizinho sair com um guarda-chuva e ligar o carro, que custou a pegar, e começou a imaginar uma história sobre o que ele estaria indo fazer nessa chuva a essa hora da noite, mas não chegou a nenhuma conclusão que gostasse. Acendeu outro cigarro.
No quarto, Vicente olhava estático para a estante de livros. Estava escuro, havia apenas uma luz amarelada saindo do abajur laranja que Ana comprou certa vez numa feira de artesanatos. "Abajur estúpido", ele pensou. Jogou-se na cama desarrumada e uma vontade dolorosa de chorar tomou conta de seus olhos verdes. Sentiu-se desconfortável dentro de si mesmo, tirou o All Star, tirou as meias, chutou as cobertas, papel de sonho de valsa, cobriu sua cabeça com um dos travesseiros, jogou o travesseiro longe, rachadura na parede, apertou suas bochechas, se pinicou com sua barba por fazer, cobertor, soluçou, cadarço, rangeu os dentes, Ana entrou no quarto:
- Eu gosto de alfaces. Acho alface a coisa mais bacana do mundo. Gosto do verde das alfaces, da textura, adoro alface com shoyu, e adoro dobrar uma folha de alface, e espetá-la no garfo e tentar colocá-la inteira na boca. Sem alfaces, uma salada não é uma salada. Nossa, como eu adoro alfaces!
Parada na porta, segurando a maçaneta, Ana estava ofegante e ainda mais descabelada. Uma das alças de seu vestido estava caída no seu ombro. Vicente levantou-se devagar, como se tivesse dormido muito, e o tic-tac do relógio de cabeceira se manifestava fervorosamente. Dirigiu-se até ela e ajeitou a alça de seu vestido. Sorriram. Para ele, ela nunca estivera tão bonita como naquele momento.

selene alge 5:57 PM

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1.3.05

e é quando eu prendo minha franja agora preta pro lado direito para ela acordar ajeitada; quando eu tiro meus óculos e me olho no espelho embaçadamente (e olha só que beleza: hoje mesmo pensei o quanto eu gosto dessa palavra "espelho"); quando coloco uma música bonitinha pra tocar, como a trilha da amelie poulain, ou a astrud gilberto, ou uma fitinha que quase me faz chorar por causa daquela maldita música mais bonita do mundo que até dói de tão linda e enche meu coração de pus; quando minha gengiva sangra e eu noto cracos no meu piercing; quando clichês bacanas saltam da tinha testa pro ralo dizendo "olá, aqui estamos nós pra te consolar"; quando eu realmente vejo a selene de agora e tenho a sensação de que já a conheço de algum lugar; quando está de noite e eu sei que no dia seguinte parecerá tudo a mesma coisa, e à noite será toda essa outra mesma coisa de agora. QUANDO. e é aí que eu PENSO.


... the morning always comes too soon.

selene alge 10:30 PM

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9.2.05



tá bom, eu sei que faltam mais de duas semanas, mas e a minha ansiedade onde fica? o meu bolso tá furado, então não dá pra ficar lá...

selene alge 11:26 PM

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3.2.05

e foi voltando da padaria de manhã (ou não tão de manhã assim) cantarolando e sentindo o cheiro dos almoços sendo preparados nas casas alheias, que me lembrei: putz, como eu gostava de papel espelho quando era criança...

selene alge 1:35 PM

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20.1.05

when everything is grey and all that you can feel is just the sad taste of your thoughts,
i know that is easy to say but neither all jelly beans are blue.
your heart is broken and you just can't stop to think of the past
"the last day of summer" is your favourite song.
i know that is easy to say but you won't die tomorrow, this would be too much bad lucky.

so would't be great if we could die just for a while?

selene alge 2:02 PM

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25.12.04

Meio dia e vinte e cinco

Olha lá você. Tá vendo? É, aquele mesmo com as mãos nos bolsos encostado no poste, olhando para as pessoas que passam, não olhando para nada realmente, pensando no que poderia acontecer nos próximos segundos. Reconhece agora? Olha só como você viu as horas pelos seus cadarços, e amarrou seu tênis no seu relógio. Você não esperava nada em especial, não é? Estava apenas testando viver no passado e no futuro ao mesmo tempo. E aquela garota ali, você vê? Sou eu. Eu estava com pressa como sempre, nem lembro porquê, provavelmente estava indo pagar uma conta ou comprar pão na padaria, sei lá. Repara só como eu nem te notei. A gente ainda não se conhecia, mas mesmo assim você me olhou. Tá vendo? Olha lá você me olhando até eu dobrar a esquina e sumir de vista, olha lá você olhando as horas de novo como se elas fossem fugir, olha lá você no dia seguinte no mesmo lugar, com o mesmo olhar e a mesma barba por fazer. E olha eu passando de novo por você. Mas dessa vez eu te vi. Dessa vez eu até esbarrei em você. Dessa vez eu até falei com você! "Desculpa...". Você mal me olhou. Ajeitou as mãos dentro dos bolsos, franziu a testa e suspirou. Eu não havia reparado você suspirando desse jeito. Você nem estranhou eu parada na sua frente tanto tempo ao invés de retomar meu caminho? Tanto tempo... O quê é tanto tempo? Para mim aqueles segundos que passaram depois da última sílaba da palavra "desculpa" que saíram timidamente dos meus lábios duram até agora. Isso deve ser tanto tempo, não é? E no outro dia me peguei passando inconscientemente pelo mesmo lugar só para te ver. E no outro. E no outro. Você às vezes me olhava, reparou? Me olhava como olhava a calçada, ou um outdoor com anúncio de pasta de dente. Olha só, nesse dia aí, depois de mais de uma semana passando por você, eu resolvi ouvir sua voz. "Que horas são, por favor?", perguntei. "Meio dia e vinte e cinco." Meio dia e vinte e cinco meio dia e vinte e cinco meio dia e vinte e cinco meiodiaevinteecinco. Todos os meio dia e vinte e cincos que se seguiram passaram a ser mais graciosos depois desse dia, passaram a ser os sessenta segundos mais felizes dos meus dias. Mas olha, um dia você não estava mais no mesmo lugar. Olha como o poste fica vazio e absuradamente triste sem você lá, olha como me senti perdida e sem saber para onde ir. E aí eu quis brincar de ser você. Encostei no poste, fingi colocar as mãos nos bolsos já que eu não tinha bolsos, e olhei para tudo com a testa franzida. Era bom ser você. Fiquei sendo você até o fim da tarde, até um garoto passar e perguntar se eu tinha fogo. Mas ei, eu conheço esse menino de algum lugar... É você? Não diga! Sério mesmo? Ah vai, não acredito...

selene alge 11:21 AM

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23.12.04

selene alge 11:42 AM

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24.10.04

saturday night, my sofa is empty
my kitchen is dirty and my mind goes away
the phone doesn't ring
the movie just ends
i've been waiting for something, i don't know what it is

i take the yellow pages and ask for chinese food
then i look at my nails and i almost cry
i listen to the sound
of my own clock
i wanna a hand to hold but all i have is my dog

selene alge 10:07 PM

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1.8.04

Pois é, não sei fazer café... só sei fritar ovos. E acho que não gosto de você. Ou gosto? Não sei, é só uma leve suposição...

selene alge 8:28 PM

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4.7.04

Tenho uma certa obsessão por torneiras. Não sei dizer exatamente porquê, o troço é que posso passar horas olhando para uma torneira, posso venerá-las e lambê-las, gosto da sua superfície lisa e fria, gosto de abrí-las e ver a água saindo como se fosse novidade. Gosto do seu design, da sua existência. Sábado de manhã, tento me lembrar porque acordei tão cedo, porque estou com vontade de comer maçãs. Eu nem gosto de maçãs. Torneiras... Tão hostis, tão indiferentes, tão nobres. Com o que foi que eu sonhei, mesmo? Torneiras... perfeitas, geométricas do seu jeito. E quem é essa pessoa dormindo no sofá da minha sala? Torneiras devem ser salgadas... Ah sim, não tem ninguém dormindo nesse sofá solitório, só restos de sonhos e remelas que ainda insistem em existir nessa manhã. Agora me lembro. Só não sei porque acordo assim, como se estivesse voltado de uma rave ou sei lá o que. Torneiras devem ter curiosidade em conhecer os peixes. Não sei fazer café...

selene alge 11:35 PM

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oi, você ainda existe?

selene alge 11:21 PM

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29.2.04

selene alge 9:24 PM

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18.1.04

orelha é um troço estranho... e depois de ficar dois dias inteiros tentando não me afogar no meu nariz, tomo cuidado para os ursinhos do meu pijama não se rebelarem e irem atrás de tapiocas.

conte-me seus anseios.

selene alge 10:50 PM

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15.1.04

UM ANNO DE ANNA!

viva, viva!!!

selene alge 7:18 PM

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6.1.04

bandas que marcaram o falecido ano de 2003:

* breeders * veruca salt * zwan * wry * phantom planet * apples in stereo * pavement * pullovers * the clash * blur * placebo * objeto amarelo * belle and sebastian * strokes * teenage fanclub * superchunk * frank black * white stripes * yeah yeah yeahs*

agora... porque raios eu acabei de escrever isso eu não sei. uma pitada de inutilidade a mais é sempre bem vinda. feliz 2004.

selene alge 9:32 PM

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22.12.03




i just don't know what to do with myself

selene alge 1:39 PM

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17.12.03

19.00 horas, na verdade. é.

selene alge 9:14 PM

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yeah yeah yeah! ^____^

selene alge 9:08 PM

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27.11.03

deep noises inside, yellow in the eyes
few light, cigarettes of chocolate
waiting for something
thinking about what color i will paint my hair
when i come home
not too cold, clock in the ear.
one hand on the face, elbow pecking
behind the moment
one plug and closed tap.
spots and lines, yellow in the eyes
empty coffee, keith haring on the taste
waiting for something.

(27.6.03)

selene alge 9:14 PM

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Selene descobrindo as maravilhas do photoshop.

-> e ainda não sei o que fazer com suas estrelas mortas.

selene alge 8:48 PM

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3.11.03

a questão é que na última madrugada eu estava desconfortável dentro de mim...

selene alge 4:30 PM

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1.11.03



keep walking little girl, the infinity is quite there

selene alge 12:05 PM

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29.10.03

cavo azulejos
molho a água fria
maqueio ânimos
assopro o que não é quente
entorto ângulos de 90º
vomito cochichos
imito o eco
apago fóforos queimados
enfeito a jugular
piso em omeletes
esfarelo areia
assassino idéias mortas
idealizo torneiras
requento espirros
marerializo desilusões
contrato inutilidades experientes
engraxo o presente
mapeio tornozelos
arredondo filhotes de canguru
empacoto angústias
mimo botões simpáticos
permeio em buracos
amoleço oxigênio
reproduzo seu último soluço
despedaço a chuva ácida
engulo fechaduras
conduzo referências
distraio o tempo
choro acerolas.

deseja mais alguma coisa?

selene alge 4:57 PM

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